quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Que Nos Atrai à Arte?

Vendo minha sobrinha de 2 anos fascinada com um desenho na TV, tive um pensamento a respeito do que é que nos atrai à arte que resolvi compartilhar aqui. Vendo aquilo, me dei conta de que num primeiro instante não poderia ser uma necessidade muito sofisticada a respeito de valores, ética, objetivos de vida, se não uma criança tão pequena não teria uma atração tão natural por um desenho quanto um adulto tem por um filme, uma música, etc. E também não poderia ser primeiramente um desejo de admirar as virtudes do artista. Isso vem depois quando somos maiores e entendemos que há alguém por trás da obra. A criança nem sabe que o desenho tem um autor. E daí me ocorreu a seguinte definição:

Antes de mais nada, a arte nos atrai porque ela nos oferece um escape pare um universo compreensível, benevolente e com significado.

Não digo "escape" no sentido de covardia, auto-enganação. Mas no mesmo sentido de que uma casa é um "escape" do frio, do desconforto, de predadores e ameaças externas - algo que nos dá uma estrutura favorável à vida (que não é automaticamente fornecida pela natureza).

A realidade em si é infinitamente complexa (muito mais complexa do que a mente humana é capaz de apreender num único momento) e também indiferente à vida (não necessariamente hostil, mas também nem sempre favorável, muito menos preocupada ou interessada nela), e sem um sentido intrínseco a não ser aquele que nós mesmos lhe damos. Nós somos ativos, e o universo é apenas passivo. A arte tem a capacidade de mudar isso e nos mostrar as coisas de uma maneira filtrada, compreensível. Subconscientemente, ela nos dá a confiança de que podemos lidar com a realidade - e cria um universo com um significado intrínseco, onde sentimos por um momento que somos participantes / jogadores dentro de um enredo maior. Por exemplo: se batemos o carro na vida real, o evento nos parece arbitrário, desnecessário, há um silêncio frio e perturbador acompanhando nossa percepção de que estamos machucados - só no futuro, através de reflexão, é que talvez conseguiremos dar algum sentido ao evento e entender o que o causou (como diz Robert McKee em seu livro Story). Mas num filme, se um personagem bate o carro, o evento é automaticamente acompanhado de uma emoção e de um sentido. Emoções e significados já estão presentes ali, no instante em que os eventos acontecem, dando um valor pras coisas e um senso de ordem que na realidade não haveria ou que demoraríamos pra ver.

Uma criança pequena geralmente não se interessa por filmes. Por que? Porque ela ainda não consegue absorver os valores por trás da história e nem entende as complexidades do mundo adulto. Ela não entende princípios abstratos, nem sabe o que é um casamento, pra que serve uma carreira, etc. Ela ainda está num nível concreto de consciência. Só entende de coisas e objetos simples - casa, comida, sol, carro, mamãe, cachorro, etc. E num desenho animado, essas coisas e objetos são representados de maneira simplificada e benevolente. Não como eles realmente são na realidade: objetos com tonalidades e texturas complexas, interagindo com diversas luzes, reflexos, misturado com outros objetos que as crianças não sabem pra que servem, animais que se comportam de maneira irracional, etc - mas viram formas simples, quase minimalistas, com cores vivas e agradáveis aos olhos: um universo simplificado (compreensível) e benevolente, de acordo com o tipo de capacidade mental da criança.

Adultos já conseguem administrar um nível muito maior de complexidade do que uma criança. Ainda assim, a arte nos oferece essa visão de um universo simplificado e benevolente que nos dá prazer e nos ajuda a compreender o mundo e a formar valores. Tanto no nível concreto / visual / sensorial (imagens são enquadradas de maneira a criarem certa ordem espacial, o tratamento da imagem reduz a palheta de cores pra algo mais harmonioso e belo, a música transforma ruídos em melodias estruturadas, vibrações sonoras harmoniosas e prazerosas ao ouvido), quanto no nível abstrato: pessoas têm motivações claras e compreensíveis, representam arquétipos consistentes, têm características sólidas que definem suas personalidades e caráteres, a história tem uma estrutura, um sentido, começo, meio e fim - algo muito diferente da complexidade e do aparente caos da nossa experiência na realidade, onde as pessoas se comportam de maneira muitas vezes contraditória, sentidos nem sempre são claros, diversas narrativas se entrelaçam e nem sempre se concluem, etc.

Naturalismo Anti-Estrutura (arte moderna, filmes de "arte", etc) são tentativas de se rebelar contra essa necessidade básica da mente humana. Essas obras querem mostrar o universo de maneira crua, como um lugar complexo, caótico e indiferente, zombando da tentativa humana de compreender o mundo e ver beleza e esperança nas coisas. É importante notar que contemplar o universo dessa forma caótica não é uma necessidade humana primária. Essas obras não são "arte" necessariamente dentro dessa definição, e sim uma reação contra à arte, uma negação da arte, baseada no desejo de "desiludir" as pessoas e dizer que elas não podem lidar com o mundo, que o universo não é benevolente, compreensível, nem faz sentido (uma atitude muitas vezes baseada em cinismo, agressividade, pra amenizar desilusões pessoais - o que de certa forma também é uma tentativa de dar ordem pras coisas, mas não com o intuito de gerar confiança pra lidar com o universo, e sim pra justificar por que nós não podemos lidar com ele).

7 comentários:

  1. Muito boa sua análise, este tipo de ideia deveria ser publicada em algum livro ou ser transmitida de alguma forma que alcançasse um público grande.

    Já pensou em escrever um livro Caio?

    Conceitos abstratos é uma das coisas mais incríveis que aprendi nos últimos tempos, quase como um universo paralelo acessível mas não visível. Sempre esteve ali mas nunca há reflexão suficiente para enxergá-lo, isso acontece de tal forma que mesmo idosos passam a vida toda sem entender a natureza objetiva da realidade e do comportamento humano.

    De qualquer forma, tirou algumas coisas de "The Romantic Manifesto" para desenvolver o texto?

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  2. Oi Marcus, obrigado.. Gostaria de organizar minhas ideias num livro sobre arte/entretenimento sim.. mas seria um trabalho duro; eu adoro ficar pensando em todas as teorias, anotar pra mim mesmo, etc, mas na hora de estruturar tudo pra explicar pros outros de maneira formal eu fico meio desencorajado.

    No Romantic Manifesto a Rand define arte como uma "recriação seletiva da realidade", o que é compatível com o que eu disse aqui.. como minha visão de arte é parecida com a dela, as ideias vão sempre se encontrar em alguns pontos.. mas minha ideia aqui era discutir o tema por um ângulo diferente que eu ainda não tinha lido em nenhum lugar. Abs.

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  3. Esses dias eu estive me perguntando "por que as pessoas fazem arte?". Concluí que fazer arte é uma necessidade humana porque o humano é racional.

    Para sobreviver é preciso adquirir conhecimento e a forma como o homem adquire conhecimento é através da razão. O homem organiza mentalmente fatos que lhe chegam desorganizados (a natureza não funciona naturalmente pelo homem) e cria ideias, organiza a natureza ''desorganizada'' e lhe dá função, significado, dando forma ao que não tem naturalmente (em relação ao homem).

    O mesmo prazer que um artista tem ao ver sua obra finalizada é o do arquiteto que vê seu prédio erguido. Que é o mesmo prazer que o selvagem tinha ao construir tendas com folhas para se proteger da chuva. O mesmo prazer que uma criança tem ao brincar na lama criando formas conhecidas (ou criando formas próprias). Tudo isso é forma do homem de exercitar e expressar sua natureza de ser racional.

    Por isso acho que a criança procura formas, organização, sentido e significado no seu nível conceitual. Não descreveria como "escape para um universo compreensível", seja em relação à criança assistindo desenhos ou ao adulto assistindo filmes, mas diria que a nossa apreciação da arte é uma apreciação (e expressão) da natureza do homem como ser racional.

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  4. Nesse post eu tava tentando explicar o que atrai o espectador à arte. O que motiva o artista a criar já é uma discussão diferente.. Pode ser simplesmente o desejo de produzir/realizar algo de valor.. exercitar um talento.. expressar uma ideia, emoção, sua visão de mundo.. Sem dúvida tem a ver com o fato do homem ser racional, hehe (como quase toda atividade humana). Mas não chamaria a criança brincando na lama de uma "artista".. Pra ser arte tem que obedecer a alguns critérios objetivos, não basta a pessoa estar fazendo algo que lhe dê prazer, que busque ordem, etc. Abs.

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  5. Não quis falar sobre o que motiva o artista a criar, mas sobre por que as o homem faz arte em geral. Também não queria fazer parecer que a criança brincando na lama é um artista fazendo arte. O que eu quis dizer é que o prazer que essa criança tem em fazer isso tem a mesma origem que o prazer do artista que faz arte, que é a necessidade humana de dar forma à natureza. E quis dizer também que, pelo meu ponto de vista, o que atrai o espectador à arte em geral é ver essa necessidade sendo atendida -- ver a natureza com forma, organização e significado (conforme estes possam ser compreendidos de acordo com o nível cognitivo da pessoa) -- e que por isso eu não descreveria o interesse da criança (ou de adultos) em desenhos (ou filmes) como "escape" porque isso faz parecer algo ruim, como se fosse uma expressão da impotência do homem em controlar e entender a realidade. Eu descreveria essa atração da criança pelo desenho , então, não como "escape" de um universo incompreensivo, mas apreciação natural ao homem da habilidade humana de fazer o universo compreensível.

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  6. Eu entendo que tem gente que usa esse tipo de coisa como escape, pessoas com pouca autoestima, mas não acho que isso é naturalmente uma forma de escape. Usando sua analogia de que seria "escape" como que "escape" do frio e coisa do tipo, faz parecer que naturalmente o homem se sente num estado ruim de incompreensão e que ele tem que ir em direção ao compreensível, o que eu não acredito que seja verdade a não ser que o individuo seja criado em um ambiente que faça parecer que o universo é incompreensível mesmo.

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  7. Entendo o que quer dizer, e eu provavelmente argumentaria da mesma forma há um tempo atrás.. Foi mais depois dessa experiência com o LSD (que eu postei aqui no blog) que se tornou palpável pra mim a existência desse estado de incompreensão por trás da nossa consciência normal.. e concluí que, embora no dia a dia a gente não perceba esse aspecto da consciência, subconscientemente a gente sabe que ele está lá.. e que é algo ruim, assustador.. Então pensei que muitas coisas que buscamos na vida (arte, ou até filosofia, religião, etc) são um movimento contra esse estado. Não estou dizendo que há algo de errado nisso.. Apenas tentando admitir que existe um "negativo" por trás do positivo.. E que se não existisse esse negativo assustando a gente, acho que algo como a arte não seria tão importante e atraente.. seria apenas uma apreciação opcional.. Da mesma forma, se não soubéssemos que existe a morte, a dor, a fome, a vida seria algo meio tedioso.. atividades como comer, fazer sexo, etc, não dariam tanto prazer às pessoas.. Abs.

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