quinta-feira, 26 de maio de 2016

Acordes e Senso de Vida

Como alguns de vocês sabem, além de cinéfilo eu também tenho interesse por música, e nas "horas vagas" desenvolvo alguns projetos na área. Lendo um livro sobre composição me deparei com esse estudo sobre o uso de acordes na música popular americana que revela algo muito interessante sobre a cultura atual e que tem muito a ver com o que costumo discutir aqui. O livro se chama How [NOT] to Write a Hit Song!:

"Cada acorde tem um tom emocional diferente. Acordes maiores transmitem alegria, entusiasmo ou um sentimento positivo; acordes menores criam um senso de melancolia ou tristeza."

"Em 2012, um estudo acadêmico revelou que o número de hits com acordes menores dobrou desde 1965, e menos canções de sucesso estão sendo escritas agora com acordes maiores."

"O psicólogo musical E. Glenn Schellenberg e o sociólogo Christian von Scheve avaliaram mais de 1000 canções americanas que ficaram no Top 40 entre 1965 e 2012. O estudo mostrou que na segunda metade da década de 60, cerca de 85% das músicas que chegaram ao topo das paradas foram escritas no modo maior, mas no final da década de 2000, este número havia caído para apenas 43.5%. Assim como as letras das canções pop se tornaram mais auto-referenciais e negativas nas últimas décadas, a música também mudou - ela soa mais triste e mais ambivalente emocionalmente."

O autor do livro Brian Oliver não enxerga essa mudança como algo ruim. Ele inclusive incentiva os novos compositores a usarem acordes menores em suas músicas para que elas se tornem mais comerciais pros dias de hoje. Ele diz:

"Compositores que ignoram completamente os acordes menores não apenas estão perdendo a chance de acrescentar mais profundidade e personalidade às suas canções, como estão indo contra uma das maiores tendências de composição dos últimos 50 anos."

Assim como as preferências artísticas de uma pessoa são um reflexo do seu Senso de Vida, as preferências artísticas de uma cultura dizem muito sobre o Senso de Vida predominante de uma determinada época - e estudos como esse são um bom indicativo de que ele se tornou mais negativo nos EUA de umas décadas pra cá, assim como podemos observar no cinema.

Eu não sou contra o uso de acordes menores, da mesma forma que não sou contra momentos de tensão e desconforto em filmes. Mas, na minha visão, os acorde menores devem ser usados apenas como um contraste para os acordes maiores, como um "tempero" - pra tornar as músicas mais dinâmicas, pra adequarem a música aos temas das letras, e principalmente como forma de enfatizar os acordes maiores, realçando seu "sabor". Mas os acordes menores não deveriam ser a meta, o foco principal do compositor. Nas músicas mais positivas, o objetivo final é sempre a harmonia e as emoções satisfatórias produzidas pelos acordes maiores.

Pra quem não está entendendo nada, vou postar abaixo uma versão do hino americano (simbolicamente) cantado numa escala menor:




E agora a versão original na escala maior:


14 comentários:

  1. Caio, relendo teu post lembrei de um vídeo que me incomodou bastante uns anos atrás.

    Como eu sou um zero a esquerda no que se refere à música. Me diga o que tu acha a respeito desta "critica": https://www.youtube.com/watch?v=oOlDewpCfZQ

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  2. oi Marcus.. não é nenhuma mentira, existem algumas progressões de acordes que são fórmulas e são amplamente usadas.. essa é uma das mais conhecidas, mas existem outras.. é meio que o "arroz com feijão" da música.. algo que costuma agradar a todos, não ofende ninguém, se encaixa em vários gêneros, etc.. claro, os grandes compositores costumam fugir disso, pois é algo básico demais, previsível, comum.. mas num nível puramente sonoro não vejo nada de errado com a fórmula.. agora, se eu fosse usar numa música minha, certamente iria querer ter um verso diferenciado, ou uma ponte.. nem que fosse pra mostrar que não sou preguiçoso, kkk.

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  3. Caio, o que tu pensa a respeito de músicas estilo "Enya" e todo o movimento "New Age", o grupo musical "Era", e operas e músicas clássicas em geral, bem daquelas estilo "Mozart" e tal? na tua visão mais "treinada", que senso de vida estes estilos de música transmitem? e como tu julga a qualidade geral delas?

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  4. Oi Marcus, eu não sou grande conhecedor de nenhum desses gêneros.. acho legal o Orinoco Flow da Enya.. uma música ou outra.. não tenho nada contra.. mas não é muito meu estilo essa coisa etérea.. me parece algo pra meditação, etc.. em geral me deixa num estado triste, melancólico, e eu prefiro música pra me estimular, me deixar pra cima. 'Era' não conheço pra dizer.. De new age tb me vem à mente o Yanni.. e Niki Nana é uma música dele que eu acho espetacular.. mas também não conheço muito mais pra poder julgar..

    Os compositores clássicos eu respeito muito.. meu maior problema com o gênero é a questão do tempo.. eu não consigo sentar por 40 minutos e ficar ouvindo uma mesma peça musical, sem letra, sem vocais, música pura mesmo.. então quando ouço música clássica, ouço apenas o "best of".. tipo o primeiro movimento da 40ª sinfonia do Mozart que eu acho genial.. mas nunca ouço uma sinfonia inteira.. acho natural que a música ao longo dos séculos tenha evoluído pro formato atual.. onde a unidade é a canção.. que dura entre 3, 4, 5 minutos.. Ópera também vi muito pouco.. as que vi gostei, mas mais pela história, pela cenografia, do que pela música.. esse lance dos diálogos serem cantados, etc, eu não gosto muito.. as melodias ficam muito genéricas, feias, servem mais pra passar o texto.. como disse, prefiro o formato de canções.. e tb acho natural que a ópera tenha evoluído pro formado do musical do século 20.. e esse sim eu sou fã.. Quanto ao "senso de vida", isso depende muito de cada artista né.. Mozart pode ser uma coisa.. Tchaikovsky pode ser outra.. a Ayn Rand por exemplo não gostava do Beethoven.. achava que ele tinha um senso de vida trágico.. hehe.. então isso tem que ser avaliado trabalho por trabalho, ou artista por artista, não dá pra julgar o gênero como um todo.. a única coisa que isso tudo tem em comum (new age, clássico, etc) é o simples fato de NÃO ser pop.. ou seja, no máximo pode sugerir um ouvinte meio anti-social, que rejeita o que está na mídia, na cultura do momento kkkkk.

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  5. Eu escuto a discografia da "Enya" direto, depois que a descobri não parei mais de ouvir. As minhas preferidas são "Wild Child" e "Caribbean Blue", se puder ouvir depois ouça. Embora a música dela transmita estes sentimentos melancólicos, eu me sinto pra cima toda vez que escuto algo que me agrada. Um paradoxo mesmo: fico exaltado por ter um artista que conseguiu criar algo que eu goste e se comunicou com meu lado negativo. Mas do movimento "New Age" a única que gosto é dela mesmo, os demais artistas não, justamente porque a obra deles não se parece com música e sim como sons ambientais para meditação. Este que tu falou, "Yanni" eu já ouvira mas nunca parei para prestar atenção, vou ouvir melhor depois.

    As operas e sinfonias clássicas também escuto bastante. Gosto de "Hungarian Rhapsody no.2" de "Franz Liszt" e "Quatro estações" de "Vivaldi". Eu vou discordar um pouco de ti e dizer que sinto que quando se fala de compositores clássicos, embora o senso de vida seja trágico, o importante é o espetáculo. Eu pelo menos nunca ouvi uma sinfonia de "Beethoven" que deixou de ser grandiosa e desfrutável para colocar em primeiro plano a tragédia. Embora eu concorde com esta melancolia da parte dele, sinto que isto não estraga a música mas a fornece uma identidade própria.

    Com relação a óperas com história eu concordo plenamente contigo. Este compromisso de ter que contar uma história atrapalha o potencial musical do espetáculo.

    As músicas do momento dificilmente se comunicam comigo. Já ouvi uma do "Eminem" que achei tecnicamente boa, mas não me agradou para ficar ouvindo, e tem algumas eletrônicas que acho terríveis mas não paro de escutar..rs

    Como não entendo de músicas, acordes, etc fico tentando adivinhar o que o artista tinha em mente quando compunha e de vez em quando passo aqui para ler o post e tentar entender melhor. A sua visão também ajuda bastante.

    Agora me responda uma coisa, com filmes como "Guardiões da Galáxia", "Esquadrão Suicida", etc com músicas antigas em sua trilha sonora fazendo bastante sucesso, tecnicamente elas não estão em alta mais uma vez? Um ouvinte que só gostava de coisas "vintage" estaria ouvindo um pop agora?

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  6. Olha, não fui eu que falei que os compositores clássicos têm um senso de vida trágico, foi a Ayn Rand.. e ela só falou isso do Beethoven.. eu particularmente não tenho essa impressão não.. mas não sou expert em música clássica, então não posso julgar direito..

    Como assim acha algumas músicas eletrônicas terríveis mas não para de escutar? haha. Deve ter algo nelas que vc acha bom então né?

    Essas músicas antigas em filmes como Guardiões da Galáxia, Perdido em Marte, etc, são usadas de maneira "tongue-in-cheek", sarcástica.. e isso é parte do motivo de eu não gostar desses filmes.. é o que explico na postagem Romantismo Reprimido, especialmente no item 6..

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  7. Aliás, o item 6 do Romantismo Reprimido é o que me parece ser o caso do La La Land tb.. que a gente ta discutindo lá no outro blog, hehe. Abs.

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  8. Desculpe...rs eu interpretei errado a questão do Beethoven, entendi que tu concordava com ela e que isso era generalizado na música clássica. Mas como também não sou especialista, só escuto bastante, então a opinião de quem entende de música eu levo sempre em consideração.

    Sim... embora eu não goste nem um pouco de músicas criadas por computador, mas prefira ouvir instrumentos e vozes reais, algumas musicas de "Bubblegum dance" dos anos 90 (eu considero recente, na minha cabeça ainda estamos em 2007), inexplicavelmente me atraem, embora eu não consiga ver nenhum valor artístico que me agrade... é como um "guilty pleasure".

    Bah! Li o item 06 agora e fiquei desanimado com o "La La Land" e com o uso de músicas antigas em filmes de sucesso. Eu não tinha me tocado disso, é pior do que eu imaginava. Eu já considerava ruim o uso destas músicas em "Glee", agora percebo um outro lado mais cínico que não sabia.

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  9. Não sei exatamente o que vc entende por bubblegum dance, mas o pop/dance dos anos 90 em geral eu acho bem melhor do que as coisas equivalentes atuais, e vejo alguns méritos estéticos sim.. mas claro, tem que ver caso a caso.. "guilty pleasure" é uma coisa engraçada, hehe.. o ideal é chegar num ponto onde você nunca tem um guilty pleasure.. onde vc entende por que gosta de algo.. sabe explicar isso racionalmente.. as coisas que vc gosta por motivos ruins você aos poucos vai deixando de gostar, pois vai se conscientizando do problema.. e no caso de obras que misturam elementos bons e ruins, você pode dizer: gosto disso, mas não disso, acho que tal coisa poderia ser melhor, etc.. Ou seja, em nenhum momento você está gostando de algo que você ao mesmo tempo condena. Não há uma contradição. Mas a gente tem que estar com as ideias bem organizadas e esclarecidas pra acontecer isso, hehe. Nem sempre é fácil.

    O La La Land pelo que vi não usa músicas antigas, mas pega emprestada uma estética antiga pra fazer a mesma coisa.. criar uma nostalgia meio agridoce.. como se ao mesmo tempo em que homenageia os musicais, o filme dissesse que aquilo era apenas uma ilusão, uma frivolidade de outros tempos, etc. Mas vamos, ver, ainda não assisti o filme pra ter certeza..!

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  10. Olá Caio, levou um tempo pra cair a ficha a respeito do "guilty pleasure" mas faz todo o sentido. Eu me referia ao europop/eurodance dos anos 90 que parecem voltados ao público infantil.

    Mas daí eu pensei, a arte não é um campo em que o gostar de algo é subjetivo? quero dizer, tudo o que a pessoa gosta em determinada obra têm de ser explicável e racional? não se pode gostar de algo (que a pessoa não conseguiria separar os elementos bons dos ruins) justamente por estar ligada a memórias ou emoções?

    No meu caso eu acho que saberia explicar. Comecei a escutar música clássica por causa da trilha sonora de filmes, e esta foi a única influência. No entanto, tenho uns membros da família que eram da "bagunça" lá nos 90 e sempre escutavam pop mesmo quando eu nem sabia o que era música, que dirá arte. Devo ter absorvido o gosto musical por osmose.

    Concordo que a arte deve ser objetiva, racional e inteligível. Mas para quem a aprecia, ela precisa sempre ser assim? não pode ser mais emocional e sentimental, estar ligada a memórias, desejos e sentimentos reprimidos? isto é, um "Michelangelo" não poderia olhar algo abstrato e dizer que gosta mas não sabe explicar o porque?

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  11. Esqueci de mencionar mais um fator que acho importante, a questão cultural. Aqui no sul praticamente toda a cultura é europeia e indígena. Muitas músicas regionais de colônia alemã, italiana, espanhola, indígenas (a gente chama de "bandinha") fazem mais sucesso na Europa do que no próprio Brasil.

    Li algum tempo atrás um critico musical dizendo que o sucesso internacional de nossas musicas regionais se deve ao mesmo uso de instrumentos, como o acordeon, e um estilo parecido de composição, além de toda a questão da herança cultural que para eles é mais familiar. Então, será que o oposto, da Europa para cá, também acontece?

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  12. Então, não existem efeitos sem causa, acho eu.. se a gente gosta de algo, é por algum motivo. 1) Esse motivo pode ser bom ou ruim. 2) A gente pode ter consciência desse motivo ou não.

    Eu acho que o ideal é a gente sempre tentar o máximo possível entender o motivo da gente gostar (ou não) de algo. Por vários motivos. Pelo auto-conhecimento, pra gente saber o que buscar, onde encontrar... Pra quem pretende ser artista, pra podermos inserir o que a gente gosta no nosso trabalho. E, no caso da gente gostar de algo por um motivo ruim, irracional, pra gente poder se conscientizar disso e ir se desapegando desse gosto indesejável, evoluir, eliminar conflitos internos, etc.

    Acho inevitável darmos um valor "extra" pra coisas que absorvemos na infância / juventude, da mesma forma que damos um valor extra pra membros da nossa família, simplesmente pela familiaridade, história, etc, e não necessariamente por eles serem melhores que outras pessoas. Mas ainda assim dá pra ser racional, e não gostar de algo ruim, nocivo, só pq é algo familiar que te traz certas emoções antigas. Claro, entre 2 coisas equivalentes, boas, com senso de vida parecido, 1 sendo algo que você conhece desde a infância, e outra sendo algo que acabou de ser lançado.. é natural preferir a coisa que você já conhece. Mas você não vai falar mal da outra só por isso nem deixar de apreciá-la.. então não vejo isso como um grande problema, algo que gere grandes contradições. abs!

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  13. Nosso temperamento / tipo de inteligência também interfere no que a gente gosta.. podemos ter certar preferências que não são puramente estéticas.. mas é mais ou menos como gosto pra comida.. o fato de você preferir carne vermelha à peixe não vai te fazer ser injusto, dizer que peixe é veneno, equivalente a esterco, etc.. acho que a razão consegue resolver numa boa essas diferenças naturais entre as pessoas.. isso não torna a arte algo abstrato, um 'vale-tudo' onde nada pode ser avaliado objetivamente.

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  14. Sobre essas músicas do sul.. não sei.. elas podem fazer mais sucesso na Europa por milhares de motivos.. assim como tem muito filme nacional que é mais prestigiado fora do que aqui.. pq às vezes o simples fato de ser estrangeiro, brasileiro, lá fora dá uma cara de 'cult' ou sei lá o que.. que aqui não tem..

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